
Trilogia dos Treze é lançada em edição conjunta de luxo

O músico e escritor gaúcho Vitor Ramil fala sobre seu romance Satolep

Um dos maiores autores vivos da prosa inglesa, Philip Roth lança Fantasma sai de Cena
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Existe uma verdade incontornável a respeito de antologias que pretendem reunir "o melhor" da obra de um autor: ninguém vai concordar com a seleção. Sempre haverá uma ou outra obra que ficará de fora e desagradará a um, a outro ou a muitos. Vale para coletâneas de discos (que infelizmente se tornaram a normano caso da maioria dos artistas que tinham uma carreira antes da era do CD), para ciclos de programação de filmes, caixas de DVD e vale também para a literatura, é claro que vale. Sempre haverá uma ou outra coisa que a gente acha que deveria estar ali e que não foi percebida ou escolhida pelo mocorongo que organizou a coletânea
A recém-lançada Antologia Pessoal(290 páginas, R$ 39) de Jorge Luis Borges, em nova edição pela Companhia das Letras como parte da republicação integral da obra do autor, mostra que isso é verdade até mesmo quando o mocorongo supracitado é o próprio escritor. Antologia Pessoal reúne 48 textos, entre contos, poemas e traduções feitas por Borges, e foi organizada pelo próprio, numa tentativa — aliás, otimista mas ingênua, na minha opinião — de o autor manter um certo controle sobre a recepção de sua obra. Um intento que fica claro nas palavras com as quais ele apresenta o livro:
Minhas preferências ditaram este livro. Quero ser julgado por ele, justificado ou reprovado por ele, não por determinados exercícios de excessiva e apócrifa cor local que andam pelas antologias e de que nao consigo me lembrar sem corar.
Pois bem, dentre os 48 textos, como eu disse, há espaço para obras consideradas clássicas com todo o mérito, como O Aleph, O Zahir, As Ruínas Circulares, O Sul, A Morte e a Bússola, Biografia de Tadeo Isidoro Cruz e Funes, o Memorioso. Há contos da fase posterior da carreita de Borges, como Xadrez e O Golem. Como alguns tipos de contos praticados por Borges se assemelham a ensaios de vastíssima erudição, há espaço para ensaios de verdade, como A Muralha e os Livros, do livro Outras Inquisições.
Mas mesmo com quase meia centena de textos selecionados pelo próprio Borges, a mim, por exemplo, fizeram muita falta nessa antologia textos como O Imortal, O Tema do Traidor e do Herói, A Intrusa, Pierre Menard: autor do Quixote e Emma Zunz, que não estão no volume, e que estão entre minhas primeiras leituras do Borges, já lá fazem longos anos, e que ainda hoje constituem textos aos quais sempre volto maravilhado. A idéia de que algum deles pudesse estar entre os "vergonhosos exercícios de cor local" de que ele fala não deixa de me intrigar por perceber o quanto o que eu penso da obra do Borges pode ser diferente do que ele próprio pensava.
O que me consola é que nem sempre o autor é o melhor crítico de sua obra.

O considerado leitor há de ter visto na página central do Caderno Cultura desta semana um texto escrito por este que vos dirige a palavra com base em entrevistas que fiz com os músicos, escritores e intelectuais Arthur Nestrovski e José Miguel Wisnik. Amigos e parceiros em um certo tipo de pensamento dirigido para a reflexão da canção popular brasileira como forma artística elevada, ambos estiveram esta semana em Porto Alegre para algumas apresentações como parte da programação do Porto Alegre em Cena. Ambos também têm em comum a atividade intelectual em vários campos, da literatura à música, passando por ensaios de caráter mais genérico como é o caso do livro mais recente de Werneck, o alentado Veneno Remédio, um ensaio sobre o papel do futebol na cultura e na sociedade — e um ensaio com pegada clássica, com potencial para acomodar-se entre as grandes obras do gênero e do assunto, abaixo, é claro, de O Negro no Futebol Brasileiro, de Mario Filho, mas ao lado do que já escreveu Roberto DaMatta, por exemplo.
O que aqui para este blog é um ótimo pretexto para reproduzir um trecho inicial da obra:
O leitor a quem se dirige esse livro não é evidente: em geral, quem vive o futebol não está interessado em ler sobre ele mais do que a notícia de jornal ou revista, e quem se dedica a ler livros e especulações poucas vezes conhece o futebol por dentro. Pierre Bourdieu1 observa, por exemplo, que a sociologia esportiva é desenhada pelos sociólogos e menosprezada pelos envolvidos com o esporte. A observação pode valer também para ensaios como este aqui, embora ele não seja do gênero sociológico. No limite, a oni-presença do jogo de bola soa abusiva e irrelevante para quem acompanha a discussão cultural. Assim, mais do que um desconhecimento recíproco entre as partes, pode-se falar, de fato de uma dupla resistência. Viver o futebol dispensa pensá-lo, e, em grande parte, é essa dispensa que se procura nele. Os pensadores. por sua vez, à esquerda ou à direita, na meia ou no centro, têm muitas vezes uma reserva contra os componentes antiintelectuais e massivos do futebol, e temem ou se recusam a endossá-los, por um lado, e a se misturar com eles, por outro. Tudo isso, por si só, já daria um belo assunto: o futebol como o nó cego em que a cultura e a sociedade se expõem no seu ponto ao mesmo tempo mais visível e invisível. E esse não deixa de ser o tema deste livro, que talvez possa interessar a quem esteja disposto a lê-lo independentemente de conhecer o futebol ou de ser ou não "intelectual".
Não é incomum, também, que intelectuais vivam intensamente o futebol, sem pensá-lo, e que resistam, ao mesmo tempo, a admiti-lo na ordem do pensamento. Nesse caso, aqueles dois personagens a que nos referimos no começo podem se encontrar numa pessoa só. Um exemplo do desencontro entre o que se pense e o que se vive do futebol pode ser lembrado no fato conhecido _ que o filme O ano que meus pais saíram de férias incorporou a seu modo _ de que muitos dos que se decidiram a torcer pela Tchecoslováquia contra o Brasil, na primeira partida da Copa de 1970, por identificarem a seleção com a ditadura militar, viraram do avesso a decisão inicial assim que a partida esquentou: a verdade é que, apesar das boas razões políticas que os guiavam, o tempo do jogo os devolvia a um lugar em que o time de futebol, contra aquilo que pensavam, não se confundia com o regime, mas se mostrava ligado a eles mesmos através de uma identificação inesperada e mais profunda.
É com ziguezagues como esse que temos de lidar. E com mais um agravante: dada a extensão que tem o futebol no Brasil, a imersão na vida futebolística se faz de uma maneira tal que não passa por uma atividade refletida, ou então passa tanto que todo mundo se considera mais na posição de ensinar futebol do que de aprender sobre ele. Afinal, trata-se do fenômeno em relação ao qual parecemos estar sempre ou muito por dentro ou muito por fora, abnubilados por ele ou desconectados da sua verdade sob a espécie de uma "superioridade" crítica.
A primeira motivação para encarar o assunto me veio dos esboços quase brincalhões de uma teoria do futebol, escritos pelo ensaísta-cineasta Pier Paolo Pasolini, e um amigo — Michel Lahud —, é uma linguagem, e comparava jogadores italianos com escritores seus contemporâneos, vendo analogias entre os estilos e as atitudes inerentes aos seus "discursos". Mais do que isso, falava, escrevendo em 1971, de um futebol jogado em poesia, referindo-se ao futebol sul-americano, e, em particular, ao brasileiro. 2 Essas idéias, que se tornaram mais conhecidas recentemente, foram muitas vezes banalizadas e reduzidas à superfície, sem que se atentasse para o alcance inédito das suas sugestões. Apesar de seu caráter apenas indicativo, Pasolini não falava de poesia no sentido vago e costumeiro de uma "aura" lírica qualquer a cerca o futebol. Também não estava projetando "conteúdo" narrativos para dentro do campo. Em vez disso, influenciado, e não sem humor, pela voga semiológica da época, identificava processos comuns aos campos da literatura e do futebol: pode-se dizer que via na prosa a vocação linear e finalista do futebol (ênfase defensiva, passes triangulados, contra-ataque, cruzamento e finalização), e na poesia e irrupção de eventos não lineares e imprevisíveis (criação de espaços vazios, corta-luzes, autonomia dos dribles, motivação atacante congênita). Sugeria com isso, pela via estética, uma maneira de abordar o jogo por dentro, e nos dava, de quebra, uma chave original para tratar da singularidade do futebol brasileiro.
Embora sumária, e aparentemente esquemática, a sua teoria. do futebol contemplava a necessária imbricação da "poesia" e da "prosa" no tecido do jogo (sem afirmar a superioridade de uma sobre a outra), e pontuava genericamente suas gradações, passando por aquilo que ele via como a prosa realista de ingleses alemães, a prosa estetizante dos italianos e a poesia sul-americana, chegando por todas essas vias ao delírio universal do gol, que suspende as oposições porque é necessariamente um paroxismo poético. Nada impede de dizermos a partir dele, sem dualismos rígidos, que os lances criativos mais surpreendentes não dispensam a prosa corrente do "arroz-com feijão" do jogo, necessário a toda partida. Ou de constatar, na literatura como no futebol, que a "prosa" pode ser bela, íntegra, articulada e fluente, ou burocrática e anódina, e a "poesia", imprevista, fulgurante e eficaz, ou firula retórica sem nervo e sem alvo. Pois a mais importante conseqüência de sua rápida semiologia exploratória, a meu ver, é de que o futebol é o esporte que comporta múltiplos registros, sintaxes diversas, estilos diferentes e opostos e gêneros narrativos, a ponto de parecer conter vários jogos dentro de um único jogo. A sua narratividade aberta às diferenças terá relação, muito possivelmente, como o fato de ter se tornado o esporte mais jogado no mundo inteiro, como um modelo racional e universalmente acessível que fosse guiado por uma ampla margem de diversidade interna, capaz de absorver e expressar culturas. O mote pasoliniano, formulado num momento muito particular do apogeu do futebol-arte, em que a distinção entre a prosa e a poesia futebolística era de uma evidência e de uma pertinência centrais, permanece, a meu ver, como um modelo simples e estimulante para comentar, mesmo quando pelo avesso, as transformações do futebol durante esses tempos e a insistente natureza elíptica do futebol brasileiro _ sua ascentral compulsão a driblar a linearidade do esporte britânico.
Acresce ainda que esse viés estético-analítico, no caso de Pasolini, é inseparável de sua paixão pelo esporte, do sentimento de sua impregnação na vida e do modo como ele testemunha as relações humanas. A sua paixão pelo futebol é uma paixão do real, sem afetações ou restrições moralistas. O futebol era para ele o terreno em que se dava ainda o grande teatro e o rito da presença, expondo ao vivo em corpo e espírito, um largo espectro da escala humana. Sendo assim, uma zona de contatos lúdicos, primária e refinada, física e metafísica, que desafia e desencadeia o desnudamento da existência autêntica. Por isso mesmo, afirmava que jogar futebol era um dos seus maiores prazeres, junto da literatura, do eros e do cinema, além de ser, como para Albert Camus ou Eugenio Evtuchenko, um campo de aprendizado total, uma espécie de romance de formação.
A recente publicação de seus escritos reunidos sobre esporte mostra que, mesmo tendo percebido desde longa data o movimento da tomada desse terreno real pela irrealidade dos simulacros da mídia burguesa, pela vacuidade da sua espetacularização e pela sagração de suas vedetes como paradigmas do consumismo, e mesmo tendo se tornado um dos críticos mais contundentes desse fato, nem por isso se permitia atacar o futebol enquanto tal. 3 Na verdade, era nesse ponto de estrangulamento, de certa forma desesperado, inquieto e fecundo, que a sua paixão viva não se deixava anular nem separar de sua consciência crítica, exigindo ver o futebol ao mesmo tempo de dentro e de fora, suportando a consciência daquilo que ele tem de alienante e manipulado em nome daquilo que tem de autêntico, memorável, apaixonante e inesperado _ em outros termos, bem seus, naquilo que tem de popular e real.
No Brasil, a incapacidade de combinar a paixão e a crítica tornou-se um traço recorrente, dominando em boa parte a cena pública invadida a todo momento pelo futebol: é como se fôssemos obrigados a estar muito colados ao fenômeno ou muito fora dele, como se só pudéssemos ser ou frívolos ou graves, para usar aqui a famosa definição de Brás Cubas para as "duas colunas máximas das opinião". Um futebolismo avassalador, multiplicado pela mídia e euforizado ainda mais pela propaganda, tem como contra-ponto quase obrigatórios a vozes altivas que se põem no que parece ser a posição pensante e que timbram por minimizar o futebol em si, destituindo-o de qualquer relevância cultural. No momento que agora se abre, com a perspectiva da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, a conhecida combinação brasileira de sucesso futebolístico com desmando político acaba por chapar o processo, fazendo de inteiro uma só medalha, com uma face eufórica e outra disfórica a se revezarem infinitamente (papel exercido pelo duplo viés comumente o assunto). Aqui, a tentativa é fazer contato com a experiência total do futebol na vida brasileira sem cair na gangorra onipresente que balança entre o veneno da crítica ou a droga euforizante _ pólos que se equivalem, quando falsamente contraposto, em nivelar e esconder a questão.
1. Ver "Programme fora sociology of sport". In Other words: essays towards a reflexive sociology. Stanford: Stanford University Press,1990, p. 156.
2. Pier Paolo Pasolini, "Il calcio è un linguaggio con i suoi poeti e prosatori" Il Giorno, 3jan. 1971
3. Ver Pier Pasolini, Les terrains: Écrits sur le sport. Tradução de Flavio Pisanelli. Pantin: Le Temps de Cérises, 2006. Para a noção de paixão da realidade em Pasolini, como adesão àquela porção do real que preserva certa inocência e integridade "face à degradação e à corrupção do mundo capitalista", ver Michel Lahud, "Pasolini: paixão e ideologia", In Os sentidos da paixão. São Paulo: Funarte/Companhia das Letras, 1987, pp. 251-67.

Fausto Wolff em frente ao Grande Hotel, em Porto Alegre, em 2003. Foto de Ricardo Duarte/ZH
A informação nos chega do Rio de Janeiro, por intermédio da família. Fausto Wolff, uma das figuras mais emblemáticas da imprensa no Brasil morreu esta noite, vitimado por uma infecção generalizada que venceu sua já debilitada saúde física. Faustin von Wolfenbüttel, seu nome de batismo, tinha 68 anos completos em julho. Espécie de menino-prodígio da imprensa nacional, bem como seu colega e amigo Millôr Fernandes, Wolff era gaúcho de Santo Ângelo e se iniciou na imprensa aqui mesmo no Estado. Anos depois, contudo, mudou-se para o Rio de Janeiro e teve passagens por diversos órgãos de imprensa até dar com os costados (largos) em O Pasquim, o mitológico jornal satírico capitaneado por Ziraldo, Jaguar e Tarso de Castro e que se tornou referência tanto em humor quanto em combatividade na imprensa nacional. Mesmo depois do fim da publicação, Fausto continuou escrevendo e provocando polêmica. Em visita a Porto Alegre há uns dois anos, declarou que o título de um de seus livros mais recentes, o volume de crônicas A Imprensa Livre de Fausto Wolff (L&PM, 278 páginas, R$ 35), tinha um intencional duplo sentido:
— É uma defesa da imprensa livre, mas também quer dizer que a imprensa está livre de mim, já que eu fui demitido de todos os jornais em que trabalhei nos últimos tempos — contou, enquanto participava de uma edição do Sarau ELétrico, no Ocidente.
Ainda assim, Wolff participou de algumas iniciativas que sacudiram a imprensa nacional, como a célebre revista Bundas ou a reedição do Pasquim, o Pasquim21, novamente com Jaguar e Ziraldo à frente do empreendimento. Depois que ambas as iniciativas naufragaram, Wolff continuou escrevendo em seu próprio site (www.olobo.net) e mais recentemente no Jornal do Brasil, onde mantinha uma coluna diária.
Wolff tinha um texto que era uma expressão fidedigna de sua personalidade: passional, furioso, terno, melancólico e bem-humorado ao mesmo tempo. Os depoimentos sobre a personalidade do escritor sempre ressaltam essa contradição em sua personalidade: uma maturidade intelectual assombrosa com uma permanente adolescência emocional.
— O Fausto era um cara que conseguia ser um sonhador aos 60 anos — diz o jornalista e político Ibsen Pinheiro, que foi colega de Millôr no jornal gaúcho A Hora e nos Diários Associados, no Rio.
— Mesmo depois de velho o Fausto continuou uma criança grande — comenta Carlos Bastos, também ex-colega de A Hora e hoje superintendente de comunicação da Assembléia Legislativa.
Embora nem sempre associado ao que há de "mais quente" ou mais "badalado" na literatura nacional, lançou livros de contos, poemas e sólidos romances que granjearam reputação crítica. Destaque para À Mão Esquerda (este particularmente meu preferido), O Lobo Atrás do Espelho e O Nome de Deus (os dois primeiros com edição recentíssima pela Leitura, editora de Minas Gerais, e o último pela Bertrand Brasil).
O último romance do velho Lobo é sua Teogonia pessoal: Olympia (Leitura, 500 páginas, R$ 45), uma delirante narrativa que cruza histórias separadas no tempo, no espaço e nas dimensões, mas que interferem uma na outra, e misturam erudição, teorias cosmogônicas e escatológicas (no sentido escolástico, não no bagaceiro), socialismo. De um lado, deuses. De outro, o personagem principal, visivelmente calcado na biografia do próprio Wolff. Antes disso, já havia se lançado a uma monumental empreitada literária: A Milésima Segunda Noite, livro inclassificável, que reúne 1002 textos que passeiam entre conto, memória, poesia, vociferação indignada e ensaios.
Deixo vocês com duas coisas sobre o escritor. Primeiro, um link para uma entrevista realizada com ele em 2006 pelo colega Márcio Pinheiro. Já a havíamos publicado aqui neste blog, e você pode lê-la clicando aqui.
Abaixo, vai um trecho de um dos textos com a verve de Wolff (que assinava a coluna do direitista fescenino Natanael Jebão na Bundas e mais tarde no Pasquim), um depoimento de janeiro de 2006 no qual relatava como teve uma isquemia, não notou e ainda fugiu do hospital e sobreviveu. Não foi daquela vez. Mas infelizmente, em alguma vez sempre é.
Evoé, velho Lobo.
FAUSTO WOLFF
Outro dia quase bati as botas. Fechado o expediente, fiquei bebendo uísque enquanto olhava o mar. À medida que bebia, mais o mar se agitava, me agitando também. Tive uma idéia genial e voltei ao computador, mas - vejam só - não conseguia escrever as frases direito. Era sempre aprotaledo pelas pavrolas. Retornei à janela, fiquei vendo o mar e tendo idéias geniais. Bebi mais algumas doses de uísque e, quando minha mulher voltou do trabalho (é, meus filhos, alguém tem de prover), contei-lhe o que ocorrera. Ela: ''Você teve um princípio de enfarte ou um princípio de isquemia'', e, sob meus discretos protestos, arrastou-me ao hospital.
Colocaram-me num leito ao lado de muitos outros, separados por um lençol. Braços furados por mil agulhas, fui vítima de um clister e do resultado do clister, tudo isso em meio a dezenas de pessoas que fingiam ignorar minha indiscreta performance. Lá pelas nove da manhã fugi do hospital e fui caminhando por Ipanema. Acabei num boteco em frente ao estúdio do Millôr, na Gomes Carneiro. Tomei um conhaque, comi um sanduíche de pernil e fumei um cigarro. Bateu-me a vontade de escrever um poeminha. Pedi lápis e caneta, mas as mãos não obedeciam ao cérebro.
Só depois de desenhar mentalmente a letra é que conseguia reproduzi-la no papel e ainda assim muito mal. Desisti do poema e fui pedir a opinião do Millôr, que há 50 anos é uma espécie de irmão mais velho. Aconselhou-me a voltar ao hospital, o que fiz de táxi desta vez. As enfermeiras me receberam de braços abertos e nem me torturaram. Tivera mesmo uma isquemia. Três dias depois, feitos todos os exames, me mandaram embora e proibiram-me de fazer as três coisas de que mais gosto: ver Mannhattan connection, discutir com adolescentes e ler originais não solicitados.
Caíram nessa? Não acredito. É isso mesmo que vocês pensaram. Estou proibido de fumar, beber e procriar, pois, no meio de uma dessas atividades, o sangue pode derrapar na veia e sair da pista da minha vida, que pode não ser grande coisa mas é minha. Por isso nunca mais fumei, bebi e procriei ao mesmo tempo. Tudo tem seu tempo certo.
Por que conto esta história? Porque o Antonio Carlos Poerner, o alemón que veio do Manguêrrrra, disse que uma sua amiga havia caído durante um churrasco. Ela levantou-se imediatamente e culpou os saltos altos pela queda. Ingrid, este o seu nome, estava um pouco agitada e alguém sugeriu que chamassem um médico. Ela recusou. Saiu às cinco e meia e às seis o marido ligou dizendo que ela havia morrido.
Como acho que os jornais deveriam ser os defensores dos que não têm advogado, além de órgãos de utilidade pública, vou salvar algumas vidas transmitindo informações. Se um neurologista conseguir examinar o paciente nas três horas após o derrame, poderá reverter o quadro. O truque é reconhecer, diagnosticar a anomalia e chamar o médico. Quando alguém der a impressão de que está tendo um derrame peça-lhe três coisas: 1) Sorria; 2) Levante ambos os braços; 3) Diga uma sentença simples coerentemente. Por exemplo: ''Adoro os seus livros'' ou ''Leio sempre suas colunas'' ou ''Está fazendo um calor do cão''. Se a pessoa tiver problemas para executar qualquer uma dessas tarefas chame um médico, ou melhor, um médico e ambulância.
Segundo Poerner, após terem descoberto que um grupo de voluntários não médicos poderia identificar fraqueza facial, muscular e mental, investigadores incentivaram a população a aprender as três ações. Apresentaram suas conclusões à Associação Americana de Cardiologia, em fevereiro de 2005, e graças a isso inúmeras pessoas deixaram de conhecer Tupã antes do tempo.
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Quando cai no colo de um crítico — ou melhor, às favas essa pretensão de distanciamento, quando cai no MEU colo — um livro como este A Vida Secreta dos Grandes Autores (Ediouro, 312 páginas, R$ 49,90) ele de pronto abre um dilema de interpretação: como abordar o livro? É uma crônica bem-humorada de curiosidades culturais ou mero lixo sensacionalista que coloca mexericos em primeiro plano, relegando ao fundo de cena a obra artística propriamente dita de seus personagens? Neste volume, o escritor Robert Schnakenberg enumera curiosidades e bizarrices, pessoais e sexuais, de grandes autores da história da literatura ocidental. Às vezes, é pura diversão e ainda tem relevância literária. Às vezes, é diversão, só.
Alguns exemplos?
* Mark Twain, ou Samuel Langhorne Clemens (1835 - 1910), pode ser, e muitas vezes é, considerado um precursor do tipo de humor de palco e improviso muito praticado pelos norte-americanos. Dava palestras sobre qualquer tema imaginável, sempre temperando suas intervenções com a verve que exercitou também em seus artigos de jornal. Certa vez, dedicou uma palestra inteira ao processo e à ciência de expelir gases. Com a Rainha Elizabeth I, que visitava a América, como convidada na platéia.
* A irmã de Virginia Woolf, Vanessa, era pintora. Inspirada pelo ofício da irmã, que era exercido em pé, Virgínia acostumou-se a escrever nessa posição (consta que Hemingway também escrevia em pé, nu e com a máquina de escrever posicionada no bordo da lareira, mas isso não está no livro, está num perfil famoso do autor pela Paris Review). PAra alguém que se matou e que ficou conhecida pela densidade quase sufocante de suas obras, Woolf também era bastante bem humorada em seus melhores períodos. Participou, com outros cinco amigos, de um trote na marinha britânica: apresentaram-se com o rosto pintado de preto como uma delegação da Etiópia em inspeção ao navio. Foram recebidos cordialmente e passsearam por todo o barco antes de descer e revelar o embuste à imprensa, causando mal estar na hieraquia naval de Sua Majestade.
* Apesar de ser um modelo de charme e "wit" em seu tempo e de se vestir impecavelmente, como um "dandy". Oscar Wilde tinha um sério problema: seus dentes eram enegrecidos e com aparência de podres, seqüela de um tratamento à base de mercúrio para tratar os sintomas de uma sífilis contraída na adolescência.
* Autora de Mulherzinhas, um respeitável livro para crianças que é até hoje um clássico da língua inglesa, a americana Louisa May Alcott era usuária de ópio e preferia escrever sob pseudônimos histórias góticas de crime e decadência. Vivia com uma família abusiva composta por três irmãs e dois país malucos, que embarcavam em qualquer onda "new age" do século 19. Ah, sim, era Alcott quem sustentava todo mundo, mas nunca se libertou da presença dos parentes – e nunca se casou.
* Todo mundo conhece a história de como Orson Welles aterrorizou a América com a transmissão radiofônica de uma adaptação de Guerra dos Mundos em 1938. O que muita gente não menciona quando narra essa história é que H.G. Wells, o autor do livro, estava vivo na época da transmissão, não gostou nem da adaptação nem da controvérsia resultante e que mesmo assim conheceu Orson Welles pessoalmente em uma tarde quente de 1940 no Texas, quando Wells visitava a América. Ambos se deram bem e chegaram a conceder uma entrevista em conjunto para uma rádio americana.
* Se vocês acham que Caetano Veloso é que não levou na boa as críticas que recebeu ao seu show com Roberto Carlos em homenagem a Tom Jobim é porque não conhecem muito bem a história de Hemingway. Incomodado com seu estilo "macho até morrer", um crítico, Max Eastman, ao resenhar Morte ao Meio-Dia, o livro do "Papa" sobre as touradas, disse que todas aquelas demonstrações de macheza pareciam coisa de quem queria provar que tinha cabelo no peito. Muitos anos depois, Eastman e Hemingway se encontraram pessoalmente. Hemingway rasgou a camisa do outro e a sua própria, para provar que tinha "mais pelos no peito" do que o crítico. Depois, deu uma bocha na cara do desafeto e o largou lá, estatelado.
* James Joyce, já praticamente cego, ditou algumas partes do Finnegans' Wake para Samuel Beckett, que era quase surdo. Isso deve querer dizer muita coisa sobre a afamada obscuridade do livro.
Divertido e engraçado, A Vida Secreta dos Grandes Autores guarda muitos dos problemas de que padece qualquer coisa cheirando a almanaque, e o principal deles é uma imprecisão em citar as fontes — histórias como a do Joyce, acima, parecem saídas de uma anedota, e não têm fonte verificável. O livro traz capa e interior ilustrados por Allan Sieber, o que aumenta a noção da obra como um livro descompromissado com a seriedade e sim comprometido com o humor, escrachado ainda que inteligente.
Em todo caso, é uma leitura agradável e você termina o livro rapidinho. Portanto, fica a critério de cada um decidir em qual daquelas duas categorias lá do início o livro se enquadra.
Nosso primeiro autor gaúcho na série Contos da Quinzena tecnicamente é paulista, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre e sua obra, principalmente seus primeiros livros, reflete de modo indubitável essa ligação com a cidade.
QUEM É? Nascido em 1979 em São Paulo, Daniel Galera é autor de um livro de contos, dois romances (ou uma novela e um romance, se quiserem entrar em tecnicidades de forma que não levam a lugar nenhum) e um bom número de traduções. Como estamos em um blog, e blog normalmente é freqüentado por quem navega na internet (jura? dããã), seu nome não deve ser novidade para a maioria dos leitores, dado que dentre os autores de sua geração Galera é um dos mais conhecidos e comentados.
Seu nome começou a circular há uma década, como integrante do staff de COLunistas do Cardosonline, formado basicamente por uma turma de amigos que incluía ainda Daniel "Mojo" Pellizzari, Clarah Averbuck e o próprio criador e identidade do zini, André "Cardoso" Czarnobai, todos mais tarde autores publicados.
O QUE JÁ FEZ? No início dos anos 2000, em sociedade com Pellizzari e com o artista plástico Guilherme Pilla, fundou a Livros do Mal, editora pela qual publicou Dentes Guardados (2001), até agora sua única coletânea de contos, e a primeira edição da novela Até o dia em que o cão morreu, mais tarde adaptado para o cinema com o nome de Cão Sem Dono, mas aí já é outra história, estamos falando de livros.
Em 2006, saiu pela Companhia das Letras, sua atual editora, o romance Mãos de Cavalo, que depois ganhou edição na Itália, na Argentina e em Portugal. Seu próximo livro, com o título de Cordilheira, pode ser esperado para depois de novembro, mas ainda sem uma data daquelas, cravada, na bucha.
E A OBRA, QUALÉ? Gentil de sua parte ter perguntado isso. Relendo o livro Dentes Guardados para escolher um conto para esta seleção, já com a leitura do que ele publicou depois, percebi uma série de camadas sutis que na época do lançamento confesso que haviam me escapado. Uma delas é um certo tom alegórico, simbólico, que Galera foi paulatinamente abandonando nos contos para centrar-se numa representação mais aparentada à representação realista em suas narrativas longas seguintes. Seus contos em Dentes Guardados guardam uma unidade não muito fácil de encontrar em livros de estréia - e coletânea de contos, ainda por cima, que muitas vezes resulta em balaio de gatos. Há uma série de histórias que tratam da entrega ao sexo como mais um meio de buscar sentido a uma existência oprimida pelas tensões e pressões de quem é chamado a ingressar de uma vez no moedor de carne do mundo do trabalho. Não no sentido da entrega ao sexo como o apresenta Henry Miller, esse é só um elemento. Há também essa busca na bebida, na vida noturna, na violência, na aniquilação, pessoal ou própria. E há contos que tratam de dilemas sentimentais das ligações afetivas modernas. Alguns deles profundamente líricos, como o belo Dafne Adormecida, ou o doloroso Alguma Psicologia.
E ONDE EU ACHO ISSO? Para sua felicidade, o primeiro livro, esgotado, está disponível na íntegra, para dowload gratuíto, no site oficial do escritor. Clica aqui. Os demais têm edição recente da Companhia, então te vira.
Agora, abaixo, está nosso Conto da Quinzena. Chama-se Amor Perfeito, é a história que abre a coletânea e sua escolha foi sugestão do próprio Galera, no e-mail em que gentilmente autorizou sua publicação neste espaço. Por tudo o que você leu antes, poderá ver que Galera é um autor que não tem medo da linguagem cotidiana aplicada ao corpo e suas interações, portanto aqueles que têm uma sensibilidade um pouco mais exacerbada para representações das paixões da carne, por favor, ou não leiam e esperem o próximo ou mantenham a discussão na caixa de comentários em alto nível.
O próximo Conto da Quinzena sai dia 14 de setembro.
Amor Perfeito
Ele tirou a minha virgindade. Transamos no meu quarto, noite suarenta de sábado em que meus pais estavam no sítio, uma penetração indolor, lenta e gostosa, e pelo resto da madrugada ele acariciou incansável o meu corpo, venerando tudo, meus peitos que eu temia serem pequenos demais, minha bunda que eu achava mole, meus pés com dedos tortos, eu tinha medo de como os homens julgariam meu corpo, era minha única ansiedade e ele desmentiu-a logo em nossa primeira noite de cama. Na primeira vez que fizemos sem camisinha, estranhei a sensação de ter aquela porra dentro de mim, sentei-me sobre os tornozelos pra que tudo escorresse de uma vez para fora, me sentindo ridícula, ele pôs um lenço de papel na palma da mão e colocou-a entre as minhas pernas, dizendo Ei assim tu vai manchar o teu edredon. Os gestos dele me surpreendiam, trazendo calma e conforto, sempre iam a favor das minhas expectativas. Dia desses num bar uma menina chegou vendendo rosas, e por um instante temi que ele fosse me oferecer uma rosa, atitude que eu teria considerado estúpida, odeio flores e odeio babaquices românticas, mas não, ele recusou a rosa e ainda me disse Eu espero que tu nunca espere que eu te dê rosas. Não concordamos em tudo, na verdade temos gostos muito antagônicos para várias coisas, filmes e marcas de cerveja, por exemplo, mas ele nunca mostrou-se preocupado em mudar minhas opiniões, aceitando minha personalidade, meus erros e meus estados de espírito com absoluta tolerância, anulando a vergonha que tive certa vez por chorar na frente dele com o gesto de lamber meu rosto e engolir minhas lágrimas, compartilhando meus momentos de angústia com abraços silenciosos, e numa noite em que saí sozinha e traí ele pela primeira vez, percebi que tinha uma chance de testar sua tolerância. Contei tudo, e para meu espanto ele apenas moveu as pálpebras macias e me disse que achava natural o desejo fora do relacionamento, que estava chateado mas que minha traição não influía no seu amor por mim. Insisti, descrevi detalhes do rapaz, dos beijos e carícias na pista de dança e isto, ao invés de abalá-lo, excitou-o. Acabamos transando, e eu gostei. Foi a partir daquele dia que a tolerância dele tornou-se irritante. Me convenci de que eu devia provocá-lo, eu necessitava de um pouco de ódio, tumulto, nosso amor era certo demais. Só que não funcionou: aturou meus porres escandalosos, meus arrotos em público, respondeu minhas agressões verbais à altura, acatou todos os meus comportamentos. Porque me amava. Me tratava tão bem, reagia tão perfeitamente às minhas expectativas, que o amor dele passou a me dar tédio, tornou-se irritante de tão pleno, de tão incorrigível. Daí resolvi terminar, mandei ele à merda. É claro que até nisso ele foi compreensivo. Eu estava prestes a acender o terceiro cigarro quando ele finalmente reagiu, e foi para me dar um abraço. Respeitou meus sentimentos, disse entender que seu amor incondicional me agredisse. Mas não era pra ele entender!, não era pra aceitar, porra!, era pra sentir ódio, pra me odiar, parti pra cima daquele filhodaputa, atirei telefone, copos, livros, cadeira, tudo pra cima dele, ele devolveu, me bateu com força, me xingou, e cada tentativa minha de machucá-lo ele respondeu, cuspi nele e ele me cuspiu, aranhei o rosto dele com ferocidade, ele me chutou pelo chão da sala, senti dor, berrei como uma porca e percebi horrorizada que até mesmo naquele momento, por deus, ele estava fazendo o que eu esperava dele, ele estava me dando o que eu queria.
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Quem abrir sua Zero Hora deste sábado encontraá um artigo assinado pelo nosso colega Gustavo Brigatti sobre o livro Blackwater: a ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, de Jeremy Scahill, uma alentada reportagem sobre as milícias mercenárias privadas que, em sem trabalho de terceirização da guerra, acabam por alarmar alguns setores devido ao poder de fogo que acabam por amealhar. Como o próprio Gustavo menciona na matéria, é um problema que vem desde a Antigüidade – alguém aí lembra de Anábase, de Xenofonte, pro exemplo, no qual um exército de gregos mercenários é contratado pelo persa Ciro para ajudá-lo a tomar o trono, nas mãos de seu irmão, Artaxerxes II? Em pleno território persa, os gregos vencem uma batalha renhida contra os persas, mas a vitória se torna irrevelante porque Ciro morre em combate, deixando os gregos sem pai nem mãe, sem pagamento e sem uma rota de saída do território persa.
Mas eu falava era de Blackwater. Com tanto poder e contratos amealhados nas zonas de guerra norte-americanas, a Blackwater se tornou uma multinacional da guerra terceirizada, levantando questões pertinentes sobre a quem mercenários devem lealdade, quem responde pelos abusos cometidos por uma força militar privada a serviço de uma nação? Como pometemos nas páginas do caderno de Cultura, vai abaixo um trecho do livro, edição da Companhia das Letras, 552 páginas, R$ 52:
O mundo era um lugar muito diferente em 10 de setembro de 2001, quando Donald Rumsfeld subiu ao pódio do Pentágono para fazer um de seus primeiros longos discursos como secretário da Defesa do presidente George W. Bush. Para a maioria dos americanos, a Al Qaeda não existia, e Saddam Hussein ainda era o presidente do Iraque. Rumsfeld já havia ocupado aquele cargo uma vez - sob o presidente Gerald Ford, entre 1975 e 1977 -, mas voltara ao posto em 2001 com idéias ambiciosas. Naquele dia de setembro do primeiro ano da administração Bush, Rumsfeld dirigiu-se aos funcionários do Pentágono encarregados de supervisionar os altos negócios dos contratos de defesa - gerenciando as Halliburtons, DynCorps e Bechtels. O secretário estava diante de um ruidoso grupo de ex-executivos da Enron, Northrop Grumman, General Dynamics e Aerospace Corporation - gente que ele havia inserido como seus altos delegados no Departamento de Defesa - e fez uma verdadeira declaração de guerra.
"O assunto de hoje é um adversário que representa uma ameaça, uma séria ameaça à segurança dos Estados Unidos da América", trovejou Rumsfeld. "Esse adversário é um dos últimos bastiões do planejamento central no mundo de hoje. Seu governo se faz com base em planos qüinqüenais. De uma única capital, ele tenta impor suas exigências por meio de fusos horários, continentes, oceanos e mais além. Com brutal coerência, sufoca o pensamento livre e esmaga novas idéias. Desorganiza a defesa dos Estados Unidos e põe em risco as vidas de homens e mulheres de uniforme." Fazendo uma breve pausa em prol do efeito dramático, Rumsfeld - ele próprio um veterano da Guerra Fria - disse então a sua nova equipe: "Talvez esse adversário lembre a antiga União Soviética, mas ela é um inimigo que não existe mais: hoje, nossos inimigos são mais sutis e implacáveis. Talvez vocês imaginem que eu esteja descrevendo um dos últimos ditadores decrépitos do mundo. Mas os dias desses ditadores também estão quase terminados, e eles não são páreo para a força e o tamanho do adversário a que me refiro. Esse adversário está mais perto de casa. É a burocracia do Pentágono." Rumsfeld estava propondo uma mudança geral na administração do Pentágono, a substituição da velha burocracia do Departamento de Defesa por um novo modelo, baseado no setor privado. O problema, explicou ele, era que, diferentemente dos negócios, "os governos não podem morrer; por isso, precisamos encontrar outros incentivos que façam a burocracia se adaptar e melhorar". O que estava em jogo, declarou, era assustador - "uma questão de vida e morte, em última instância, para todos os americanos". Naquele dia, Rumsfeld anunciou uma grande iniciativa para modernizar a capacidade de intervenção do setor privado nas guerras empreendidas pelos Estados Unidos, e previu que sua iniciativa encontraria feroz resistência. "Alguns poderão perguntar: 'Como pode o secretário de Defesa atacar o Pentágono diante de seus próprios funcionários?'", continuou Rumsfeld, dirigindo-se a sua platéia. "A esses, respondo que não tenho intenção de atacar o Pentágono; quero libertá-lo. Nós precisamos salvar esta instituição de si mesma."
Na manhã seguinte, o Pentágono seria literalmente atacado, quando o vôo 77 da American Airlines - um Boeing 757 - chocou-se contra sua face oeste. Rumsfeld ficaria famoso por ajudar a resgatar corpos dos escombros. Mas não demoraria muito para que ele, o grande mestre do militarismo, aproveitasse a quase inimaginável oportunidade oferecida pelo 11 de setembro para acelerar sua guerra pessoal, exposta apenas um dia antes. O mundo havia mudado de maneira irreversível, e num instante o futuro da mais poderosa força militar do planeta se tornara uma tela em branco, na qual Rumsfeld e seus aliados poderiam pintar sua obra-prima. A nova política do Pentágono dependeria muito do setor privado, daria ênfase a operações secretas, a sofisticados sistemas de armamentos e ao grande uso de forças especiais e de prestadores de serviço. Isso ficou conhecido como a Doutrina Rumsfeld. "Precisamos promover uma abordagem mais empresarial: uma abordagem que incentive as pessoas à pronta ação, e não à reação, e a se comportarem menos como burocratas e mais como capitalistas empreendedores", escreveu Rumsfeld, no verão de 2002, num artigo para a revista Foreign Affairs intitulado "Transformando os militares". A abordagem "minimalista" de Rumsfeld abriu a porta para uma das mais significativas tranformações na guerra moderna - o amplo uso de prestadores de serviço, ou contratados, em todos os aspectos da guerra, inclusive em combate.
Entre os que logo receberam chamados da administração para se juntar a uma "guerra global ao terror", a ser lutada de acordo com a Doutrina Rumsfeld, havia uma companhia pouco conhecida que funcionava em um campo particular de treinamento militar perto de Great Dismal Swamp, um pântano da Carolina do Norte. Seu nome era Blackwater USA. Depois da grande tragédia do 11 de setembro, praticamente da noite para o dia uma empresa que mal existia até poucos anos antes se tornaria peça central na guerra global desencadeada pelo império mais poderoso da história. "Trabalho no ramo de treinamento há quatro anos e estava começando a ficar um pouco cínico quanto à seriedade com que as pessoas encaram a segurança", disse o proprietário da Blackwater, Erik Prince, ao entrevistador da Fox News, Bill O'Reilly, pouco depois do 11 de setembro. "Agora, meu telefone não pára de tocar."
Mas a história da Blackwater não começa no 11 de setembro, nem com seus executivos ou mesmo com sua fundação. De certa forma, ela resume a história da guerra moderna. Em essência, a Blackwater é o coroamento da obra de uma vida inteira daqueles que formaram o cerne da equipe de guerra da administração Bush.
Durante a Guerra do Golfo, em 1991, Dick Cheney - grande aliado de Rumsfeld - era secretário da Defesa. Na época, dez por cento das pessoas posicionadas na zona de guerra estava ali por força de um contrato privado, uma porcentagem que Cheney tinha o firme propósito de aumentar. Antes de deixar o cargo, em 1993, ele encomendou um estudo a uma companhia que acabaria por dirigir: a Halliburton. Tratava-se de um estudo sobre como privatizar rapidamente a burocracia militar. Quase da noite para o dia, a Halliburton criaria sozinha uma indústria de prestação de serviços militares aos Estados Unidos no exterior, com um potencial de lucros aparentemente infinito. Quanto mais agressivamente os Estados Unidos expandissem seu alcance militar, melhor para os negócios da Halliburton. Era um protótipo para o futuro. Nos oito anos seguintes do governo Bill Clinton, Cheney trabalhou no American Enterprise Institute, influente grupo neoconservador de pesquisas interdisciplinares que liderou a investida por uma aceleração no processo de privatização do governo e das Forças Armadas norte-americanas. Por volta de 1995, Cheney estava no comando da divisão da Halliburton que se tornaria o maior prestador de serviços de defesa aos Estados Unidos. O presidente Clinton apoiou em grande parte esses planos de privatização, e a empresa de Cheney - assim como outras prestadoras de serviços - fechou lucrativos contratos durante o conflito dos Bálcãs, nos anos 90, e na guerra do Kosovo, em 1999. Em meados da década de 90, uma empresa de consultoria militar baseada na Virgínia, a Professional Resources Incorporated, dirigida por graduados oficiais aposentados, foi autorizada pela administração Clinton a treinar tropas croatas para sua guerra separatista contra a Iugoslávia dominada pelos sérvios; um contrato que em última análise desequilibrou a balança naquele conflito. Esse contrato foi o prenúncio de um tipo de envolvimento do setor privado que se tornaria padrão na guerra ao terror. Mas a privatização foi apenas parte de um programa mais abrangente. Cheney e Rumsfeld foram membros-chave do Projeto para um Novo Século Americano (PNAC), iniciado em 1997 pelo ativista neoconservador William Kristol. O grupo fez pressão para que Clinton promovesse uma mudança de regime no Iraque, e seus princípios, que advogavam "uma política de força militar e clareza moral", formariam as bases de grande parte da política externa da administração Bush.
Em setembro de 2000, apenas meses antes de seus membros passarem a integrar o núcleo central do governo Bush, o Projeto para um Novo Século Americano lançou um relatório chamado Rebuilding America's Defenses: Strategy, Forces and Resources for a New Century (Reconstruindo as defesas dos Estados Unidos: estratégia, forças e recursos para um novo século). Ao expor a visão do PNAC sobre a revisão da máquina de guerra norte-americana, o relatório reconhecia que "o processo de transformação, ainda que portador de mudanças revolucionárias, provavelmente será longo, caso não haja algum evento catastrófico ou catalisador - como um novo Pearl Harbor". Um ano depois, os ataques do 11 de setembro forneceriam o necessário catalisador: uma justificativa sem precedentes para o avanço desse programa radical, moldado por um pequeno núcleo de agentes neoconservadores que haviam acabado de assumir o poder oficial.
Paralelamente às guerras do período posterior ao 11 de setembro, desenrolou-se um subenredo freqüentemente ignorado: o da terceirização e da privatização que esses conflitos possibilitaram. Desde o momento em que a equipe de Bush tomou o poder, o Pentágono abarrotou-se de ideólogos como Paul Wolfowitz, Douglas Feith, Zalmay Khalilzad e Stephen Cambone, bem como de ex-executivos de grandes empresas - muitas delas grandes fabricantes de armamentos -, como o subsecretário de Defesa Pete Aldridge (Aerospace Corporation), o ministro do Exército Thomas White (Enron), o ministro da Marinha Gordon England (General Dynamics) e o ministro da Aeronáutica James Roche (Northrop Grumman). A nova liderança civil do Pentágono chegou ao poder com dois objetivos principais: a mudança de regime em nações estratégicas e a implementação da operação de privatização e terceirização mais abrangente da história militar dos Estados Unidos - uma revolução nos assuntos militares. Depois do 11 de setembro, essa campanha não pôde mais ser detida.
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Eu precisava de hospedagem. Foi assim que o conheci. Eu queria alguém para dividir o aluguel do quarto comigo. Fomos apresentados por um conhecido comum, nos laboratórios químicos de St. Bart's.
— Percebo que esteve no Afeganistão — foi isso que ele me disse, e meu queixo caiu e meus olhos se arregalaram.
— Incrível — comentei.
— Na verdade, não — continuou o estranho de jaleco branco que se tornaria meu amigo. — Olhando para o seu braço, vejo que o senhor foi ferido, e de modo peculiar. O senhor é bem bronzeado e tem postura de militar, e há poucos lugares do Império onde um militar pode se bronzear e também, considerando a natureza do ferimento no seu ombro e os costumes dos povos afegãos das cavernas, ser torturado.
Explicado assim, claro, parecia absurdamente simples e lógico. E realmente era. Eu tinha mesmo um bronzeado jambo. E de fato fora, como ele observou, torturado.
Longe de serem sensatos, os deuses e os homens do Afeganistão eram selvagens e se recusavam a ser governados por Whitehall, Berlim ou até Moscou. Eu fora enviado para aquelas colinas junto com o _º Regimento. Enquanto a luta ficou nas montanhas, combatemos em pé de igualdade, mas, quando descemos para a escuridão das cavernas, ficamos encrencados até o pescoço, em larga desvantagem.
Jamais vou esquecer a superfície espelhada do lago subterrâneo, nem a coisa que emergiu dele, seus olhos abrindo e fechando, e os sussurros melódicos que acompanhavam sua entrada em cena, envolvendo-a como o zumbido de moscas gigantescas.
Que eu tenha sobrevivido foi um milagre, mas sobrevivi, e voltei para a Inglaterra com meus nervos em frangalhos. O lugar onde aquela boca de sanguessuga me tocara ficou tatuado para sempre, uma pele branca feito barriga de sapo, no meu ombro, atualmente atrofiado. Eu já fora um exímio atirador. Agora não me restava nada além do medo do mundo subterrâneo, quase um pânico, que me fazia pagar de bom grado seis pence da minha pensão militar por uma charrete em vez de um penny para viajar de metrô.
Ainda assim, as névoas e a escuridão de Londres me confortavam, me acolhiam. Eu perdera minha moradia anterior porque gritava à noite. Eu estivera no Afeganistão, mas não estava mais lá.
O trecho acima é do conto Um Estudo em Esmeralda, no qual o escritor, roteirista de cinema e TV e mundialmente conhecido autror de quadrinhos Neil Gaiman tenta realizar um cruzamento no mínimo improvável entre dois universos que parecem misturar-se tão bem quanto água e azeite: o dos "antigos" de H.P. Lovecraft e o do Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle
Holmes, saberá qualquer um que tenha lido, ainda que distraidamente, um livro protagonizado por ele, é a encarnação do espírito racionalista vitoriano: um mestre das astúcias, gênio do raciocíno dedutivo e um dos poucos personagens que, criados na literatura, extravazaram sua condição até ganhar lugar no imaginário, ao ponto de ser conhecido mesmo por quem nunca o leu. Holmes encarna os ideais do cientificismo do século 19: qualquer mistério tem uma solução, desde que se investigue com cuidado os indícios certos pelo método adequado.
Como provavelmente um número bem menos de pessoas saber, Lovecraft opera no extremo oposto, e seus contos de horror abordam as sombrias charnecas do inconsciente, as camadas mais escuras da imaginação humana, onde coisas gosmentas com tentáculos viscosos e ventosas de toque gélico aguardam para tomar posse do mundo e dilacerar a frágil raça humana.
Gaiman recebeu a encomenda de um conto juntando os dois universos, e o resultado é a história que abre Coisas Frágeis, sua mais recente coletânea lançada no Brasil. Uma série de narrativas curtas nas quais Gaiman realiza o que pode ser considerada sua marca, a criação de atmosferas que fundem o horror, o gótico, a fantasia e partem de referências variadas, da literatura infantil clássica, como o conto O problema de Susan, no qual retoma um dos personagens de As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, até uma ilustração do mestre dos quadrinhos Frank Frazetta, cuja visão inspira Gaiman a criar Os fatos no cado da partida da sra. Finch, no qual uma visita ao que deveria ser um inofensivo e até decadente show circense termina de forma inesperada. Nestes contos, contudo, o desenho das personalidades dos personagens é um pouco menos rico do que na outra coletânea de narrativas curtas de Gaiman, a mágica Fumaça e Espelhos. Centrado mais no desenvolvimento da fábula narrativa e muito calcado em diálogos, algumas vezes os contos apresentam personagens de pouca densidade, como figuras rasas plasmadas diretamente dos quadrinhos — uma das histórias em particular, Lembranças e Tesouros, foi escrita originalmente como história em quadrinhos e depois transportada para a literatura, onde ganhou um pouco no aprofundamento da psique do personagem principal, embora mesmo isso nessa história pareça insuficiente. Em outros textos, como no próprio Um Estudo em Esmeralda do qual se lê um trecho nesta página, a inventividade da narrativa compensa com sobra essa profundidade algo cartunesca da psicologia dos personagens. E em A vez de outubro, uma história que claramente parece escavada dos tempos de Gaiman à frente da cultura série de HQ Sandman, uma atmosfera poética e triste de uma infância perdida torna o conto um dos melhores da coletânea.
Ah, sim, um último comentário, que não deixa de trazer consigo uma nota irritante: como o próprio Gaiman, convidado da Flip deste ano, revelou na festa literária, a edição da Conrad traz só metade dos textos publicados originalmente nos Estados Unidos. Quem conhece o livro em inglês vai notar que bailaram nesse corte a facão contos como Os outros e poemas narrativos que são também marca característica de Gaiman. O corte não é explicado pela editora no livro nem ao menos justificado, uma vez que a própria Conrad lançou Fumaça e Espelhos há alguns anos com uma mescla de narrativas e poemas sem que o volume ficasse pior por isso. FIca a dica.
Faz algum tempo o leitor que se intitula PC, o PC, deixou uma sugestão na caixa de comentários e eu achei tão boa que resolvi pô-la em prática.
A partir deste sábado, ao meio dia, entra no ar aqui neste blog uma série que pretende apresentar aos nossos leitores a cada 15 dias um conto completo de um autor gaúcho, bem como uma breve apresentação biobibliográfica. A idéia é levar até vocês por aqui um pouco da literatura dos escritores gaúchos que estão por aí, produzindo, atuando, fazendo a cena literária.
Óbvio que tudo isso sempre necessita da autorização dos autores, etc, então, para garantir a continuidade da série, a idéia é que ela seja publicada de 15 em 15 dias, de dois em dois sábados (ajuda na logística, fica mais seguro manter o processo em andamento e evita que eu tenha de pular uma ou outra edição. Desculpem, folks, mas infelizmente tenho de, com o tempo que disponho, apresentar metas plausíveis).
Portanto, acessem o blog a partir de meio-dia de sábado para acompanhar o Conto da Quinzena!
Ok, andamos numa pausa de contingência, então o ritmo meio que desacelerou aqui neste espaço. Agora, este blog vai ficar outra vez movimentado, posso garantir. Abração a todos.
A despeito de qualquer outra nobre intenção do autor, o filme Desejo e Reparação, baseado na obra de Ian McEwan, tem o poder de despertar no espectador uma reflexão rasa, mas quase inevitável para quem sai do cinema de mãos dadas e cega os olhos diante do ambiente iluminado, seguro e aparentemente feliz do shopping center. Depois de duas horas assistindo à tragédia particular de um casal, parece ficar flagrante o abismo que há entre aquele mundo da primeira metade do século 20 — quando a qualquer momento uma carta convocando para lutar em uma guerra poderia chegar e arruinar para sempre a trajetória de um amor — e o atual, em que provavelmente o único perigo enfrentado pelo casal que foi ao cinema é o de que a relação caia no tédio depois de mais alguns domingos repetindo aquele programa.
Esta aparente sensação de segurança do indivíduo diante de um mundo sujeito a poucas intempéries do tipo que nossos avós costumavam enfrentar - guerras intercontinentais, epidemias, fascismo - é, no entanto, uma armadilha, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Em Medo Líquido (Jorge Zahar, R$ 29,90, 240 páginas), publicado este ano, o autor que se tornou um best-seller ao aproximar a sociologia do cotidiano dá seqüência ao estudo do mundo atual à luz de sua teoria líquida.
Depois de escrever Modernidade Líquida, Amor Líquido, Tempos Líquidos e Vida Líquida — sempre tendo como norte a volatilidade e a instabilidade das relações atuais —, o polonês mira agora na insegurança. Para descrever a trajetória deste sentimento e decifrar por que continuamos apavorados, em pleno século 21, Bauman retrocede para além da II Guerra de Desejo e Reparação. Reimagina a experiência de se existir no século 16, que foi definida por Lucien Febvre como "peur toujour, peur partout" (medo sempre e em toda parte). O historiador francês vinculava a ubiqüidade do medo à escuridão do mundo, que começava do lado de fora da casa. A modernidade seria o grande salto à frente: com o avanço das ciências, chegaria o tempo do fim das surpresas, das calamidades, das catástrofes. Mas não foi bem assim: "O que deveria ser uma rota de fuga, contudo, revelou-se, em vez disso, um longo desvio. (...) Esta nossa vida tem se mostrado diferente do tipo de vida que os sábios do Iluminismo
e seus herdeiros avistaram e procuraram planejar",constata Bauman.
Refletidas nas capas de revista dedicadas à saúde e nas "advertências globais" (gripe das aves, bug do milênio, ondas assassinas) que se multiplicam a cada dia, a sensação de medo, segundo Bauman, é indissociável do contexto descrito por ele em Modernidade Líquida — livro que reúne suas teses centrais:
"Viver num mundo líquido-moderno conhecido por admitir apenas uma certeza — a de que o amanhã não pode ser, não deve ser, não será como hoje — significa um ensaio de desaparecimento, sumiço, extinção e morte."
Os perigos atuais seriam basicamente de três tipos: aqueles que ameaçam o corpo e as propriedades, aqueles que ameaçam a durabilidade da ordem social (da qual dependem renda e emprego) e aqueles que ameaçam o lugar da pessoa no mundo (a posição na hierarquia social, a imunidade à exclusão social). O Estado, em vista dos mercados crescentemente extraterritoriais, não é mais capaz de cumprir seu dever de proteger os cidadãos das ameaças à existência.
Os medos também são classificados por Bauman em três tipos: o da natureza (terremotos, furacões, secas), o de outras pessoas (terroristas, criminosos, poluição) e um terceiro tipo, descrito como "uma zona em que as redes saem do ar, barris de petróleo secam, bolsas de valores entram em colapso e companhias desaparecem do dia para a noite levando consigo centenas de empregos".
Neste contexto, os cartões de crédito seriam uma reação: "Vivemos a crédito: nenhuma geração passada foi tão endividada quanto a nossa. Viver à crédito tem seus prazeres utilitários: por que retardar a satisfação? (...) Se as cadernetas de poupança implicam a certeza do futuro, um futuro incerto exige cartões de crédito."
Bauman interpreta ainda fenômenos recentes como o programa de televisão Big Brother e o terrorismo. Por fim, dedica um capítulo às maneiras de se lidar com o medo — capítulo que se revela desnecessário. O mérito de Bauman — reafirmado em mais este livro — é justamente o de não oferecer respostas prontas, mas deixá-las implícitas na dissecação que faz da realidade. Ao propor um grande divã da humanidade, nos faz pensar se não estamos, o tempo todo, exagerando um pouquinho.

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