Ainda por esses dias apareceu de novo na mídia a expressão “ciclone extratropical”, para designar aquele fenômeno que a gente aparentemente só via em noticioso norte-americano, aquele funil de vento, aquele turbilhão que vai destruindo tudo por diante. Fui ver no Houaiss a origem de “ciclone”: é palavra construída por meteorologista inglês, Henry Piddington, a partir de uma palavra grega, algo como |kukloma|, significando objeto em forma circular, com relação com o verbo |kúkloo|, rodar em círculo, tudo isso chegando à forma inglesa “cyclone”, lá pela metade do século 19.
Resolvida a origem do substantivo, vamos ao adjetivo: extratropical, palavra quase impronunciável, significa... o senhor sabe o quê? Vamos ver, o senhor me diz aí: o que lhe parece que seja? Parece ser uma definição do jeito de ser do ciclone, do furacão? Tipo assim: “extratropical” significaria “fortíssimo”, ou ao contrário, “fraquíssimo”? Ou significaria “aquele que acontece no mar de Santa Catarina e pode levar barcos para o fundo das águas”?
Nada disso: extratropical significa, como talvez o senhor tenha visto, apenas e simplesmente “que ocorre fora dos trópicos”. Ou seja: se o senhor ouve que vai rolar, aliás literalmente vai rodar um ciclone extratropical, o senhor deve apenas ouvir que vai rodar um ciclone, e que ele não vai espalhar seu rastro destrutivo lá perto dos Estados Unidos, cuja costa sudeste vive sendo batida por ventos ferozes. (Sabe por quê? Tem a ver com a temperatura do mar, a qual, por sua vez, tem a ver com efeito estufa: eles queimando loucamente o petróleo mundial para usufruírem daquele padrão irrepetível de conforto.)
Eu tenho uma pinimba com o uso do adjetivo, então, justamente por causa de sua aparência de coisa séria, quando não passa do jeito norte-americano de qualificar os ciclones que não acontecem no quintal deles. Entende? Na minha opinião, não tem o menor cabimento nós dizermos que vai ter um ciclone extratropical em Santa Catarina; a gente tem que dizer que vai um ciclone em Santa Catarina, e deixemos o adjetivo “extratropical” para os noticiosos deles lá, na terra do Tio Sam. E tenho dito: imperialismo tem que ter um limite, nem que seja o da burrice ou da subserviência (nossas).
Não sei se o senhor já percebeu, mas acontece uma manha esquisita na linguagem de nossos dias, nessa matéria de ciúme: é considerar “ciúmes” como sendo invariável, ou melhor, como sendo uma dessas palavras peculiares, que têm “s” no fim mas não exigem as flexões de concordância no plural, feito “ônibus”. Tem cabimento?
Por mim, não tem nenhum. Tem a palavra no singular, “ciúme”, e tem seu plural, “ciúmes”; mas de repente parece que a língua atual está encarando a unidade como sendo “ciúmes”, como se fossem palavras feito exéquias, bodas, pêsames, alvíssaras, núpcias, férias, primícias, condolências e mesmo, perdoada a grossseria, fezes. Ocorre que, nestes casos todos, a palavra é sempre usada na forma plural, não havendo singular corrente (não se usa exéquia, pêsame, alvíssara, etc., e só em contextos específicos se usa boda, núpcia e féria — e não há uma fez, jamais); e quem usa qualquer dessas formas exige a concordância no plural, no artigo e no que mais for.
Então por que raios é que a gurizada escreve “o ciúmes”? Fui agora mesmo ao google para averiguar rapidamente o uso: teclei entre aspas “o ciúmes”, apenas em língua portuguesa, e apareceram 735 ocorrências. Cito: “Dra Margareth L. Eidt acredita que o ciúmes está intimamente ligado as questões de confiança e desconfiança”, frase em que ainda por cima falta um sinal de crase. Outra: “Mas o ciúmes reprimido será mais forte e prejudicial para a criança do que se tivesse ...” Esta pequena jóia está num site chamado “portaldasfamilias.org”, se é que o senhor me crê. Outro caso ainda: “Pelo visto ele gosta muito de você, pois o ciúmes em partes é o medo de perder uma pessoa que se gosta muito...”
Quer dizer: aí está uma alteração na língua portuguesa atual. “Ciúmes”, não como “bodas” mas como “ônibus”, está sendo entendido como uma palavra que termina em “s” mas não tem número marcado, sendo portanto encarada como substantivo singular. Sou contra, não os ciúmes, que fazem parte da vida e, na minha velha opinião, são plurais; sou contra a mudança, que talvez nos atropele a todos, mesmo assim.
Já ando tentado a escrever umas lembranças de natais passados, especialmente de um, quando eu era um militante católico atuando, com vários amigos, junto a uma vila miserável em Porto Alegre. Isso foi lá por 1979, mais ou menos, e na noite de Natal, por instigação do meu pai — um católico devotado às causas populares mais do que eu —, fomos ele e eu até a casa de um recém-chegado na vila, cujo barraco eu ajudei a levantar nos dias anteriores, com minhas escassas capacidades construtivas. Fomos levar um tanto de comida festiva e algum presente para aquela família, marido e mulher mais uns três filhos. Chegamos e todos já estavam dormindo; mas ficaram felizes de acordar e ganhar aquela pequena regalia. (E me chama a atenção, talvez mais que tudo, que o pai e eu fomos de carro, estacionamos no descampado que dava acesso à pequena vila miserável, sem qualquer medo, coisa impossível de pensar hoje.)
Seja como for, com mais violência hoje e com muito menos ingenuidade e bom coração, se houver um leitor aí deste lado da tela, vai daqui um abraço natalino.
Não sei como é que o leitor lida com isso, mas o caso é que quem vive no mundo da cultura letrada sempre tem consciência da dívida que se acumula em sua vida: quanto mais conhece e lê, mais sabe que tem a ler, e ali no horizonte vai crescendo a sombra daquela montanha de livros jamais lidos que seria imprescindível ler. Quando se lê em mais de um língua, o problema se agrava; quando se freqüenta mais de uma época, o parafuso dá mais uma volta na rosca sem fim do conhecimento.
Tomemos o caso do italiano: trata-se de uma língua de cultura antiga, espessa, praticamente infinita para apenas uma vida de leitura. Vai-se ver o presente e ali está Umberto Eco, que é romancista e erudito comentador de literatura; recua-se um pouco e ali está Italo Calvino, romancista que, por sinal, estabeleceu uma inteligente (e desesperante) tipologia dos livros que temos que ler, no capítulo inicial de Se um viajante numa noite de inverno. Indo bem lá para trás, vamos encontrar Dante Alighieri (1265-1321), por muitos títulos o primeiro autor moderno de literatura. E como ler sua obra?
Não faz muito saiu uma versão em prosa de sua Comédia (L&PM), que ganhou o adjetivo Divina só duzentos anos depois, tradução que se soma a algumas outras em português (há um pela editora Itatiaia, outra pela 34, outra ainda pela Bertrand). Sua Vida nova, coletânea de poemas líricos acompanhados de comentários do próprio autor, também tem mais de uma tradução entre nós. Sobre ele, há em nossa língua coisa de alta erudição (Auerbach, Curtius, Bloom), assim como comentários apaixonados, como o de Jorge Luis Borges. Tudo isso é uma selva, talvez tão escura quanto aquela que abre a Comédia, “nel mezzo del camin” da vida do narrador.
Para aliviar o tormento do candidato a leitor é que apareceu o excelente livro de Eduardo Sterzi Por que ler Dante (Globo). Aliando com grande habilidade o comentário erudito com um texto fluente, claro e preciso, o livro desenha a vida, a obra e, mais importante, as sigularidades e as conquistas de Dante. Uma introdução de luxo ao autor, um estudo de nível raríssimo no Brasil, uma leitura prazerosa para quem queira abater um pouco daquela dívida impagável.
Poderiam ser 20 ou 50, e mesmo assim não escaparíamos da marca naturalista da literatura brasileira, que faz os narradores mobilizarem o melhor de sua arte para tentar entender os mistérios deste país tão futuroso e tão desigual. O Brasil conta com ótimos romances intimistas (os de Clarice Lispector, para começo de conversa), com alguns casos bem sucedidos de narrativa alegórica (Pilatos, de Carlos Heitor Cony, para citar um) e também ótimos romances de diversão (os de Luis Fernando Verissimo, por exemplo). Mas parece ser no desvelamento da realidade dura, na cidade ou no campo, que se realiza o melhor da vocação narrativa no país.
1. O cortiço, de Aluísio Azevedo (1890): Todo mundo lê no colégio e talvez nem saiba apreciar os acertos deste romance naturalista, que registra com grande acerto a vida dos de baixo, no Rio do final do século 19, abrindo caminho para uma longa tradição de narrativas.
2. Dom Casmurro, de Machado de Assis (1900): É difícil escolher o que é melhor na obra do mestre, mas por certo a vida de Bento Santiago é memorável. Tem amor misturado com ascensão social e ciúme doentio, com uma prosa de exceção.
3. Contos gauchescos, de Simões Lopes Neto (1912): Uma sucessão de 20 contos que formam um mapa geral da vida campeira gaúcha, que começava a ser engolida pela cidade, numa linguagem algo difícil mas adequada para relatar trajetórias de homens brutos num mundo natural bonito mas difícil.
4. Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade (1934): Narrativa de vanguarda mesmo é esta, que chega a dar nos nervos de tão fragmentada, mas compensa pelo humor corrosivo e pela inventividade, talvez insuperada ainda agora.
5. Vidas secas, de Graciliano Ramos (1938): Aula de secura lingüística, em harmonia com a aspereza da vida de personagens que fogem da seca em busca de qualquer coisa menos horrível que aquela; aula de humanidade, no fim das contas.
6. O continente, de Erico Verissimo (1949): Primeira parte de O tempo e o vento, é talvez o romance mais encantador do país no sentido épico, que nos faz acompanhar um século e meio de história no mundo rural gaúcho, quando se forja o país ao sul na vida das famílias Terra e Cambará.
7. Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (1956): Livro que já fez muita gente desanimar, pela linguagem meio cifrada, é uma das maravilhas da cultura brasileira, arrebatando o leitor para um mundo primitivo prestes a morrer, pelo testemunho de um velho misto de ex-jagunço e filósofo bruto, Riobaldo.
8. Feliz ano novo, de Rubem Fonseca (1975): Seqüência de 14 contos que são um soco nas vistas do leitor, um vômito do horror que a cidade brasileira moderna criou e que até hoje nos oprime, numa linguagem que renovou a prosa brasileira.
9. Lavoura arcaica, de Raduan Nassar (1975): Novela curta e certeira, que dá conta da ruidosa ruína do mundo familiar rural, num contexto de gente imigrante, tudo contado numa linguagem elíptica que lembra a frase bíblica mas não oferece nenhum consolo.
10. Estorvo, de Chico Buarque (1991): Sério concorrente a clássico de nossos dias, o primeiro grande romance de Chico é uma desolação só, ao contar uns dias na vida de um sujeito das elites que se vê jogado no mundo dos de baixo, no Brasil atual, em que tudo parece ser projeto e ruína, ao mesmo tempo.
Atendendo a um pedido, vai aqui, como primeiro de uma série, um conjunto de leituras importantes, tipo as melhores que eu fiz na vida, até aqui. E vai com uma conversa inicial, pra explicar a coisa.
Conto, no sentido estrito da palavra, é um gênero moderno: nasceu na sociedade industrial em que vivemos ainda hoje, com todas as vertigens. Por isso ficam de fora da lista as histórias magníficas que Sherazade relatou para salvar o pescoço, nas Mil e uma noites, como também os relatos bíblicos, homéricos e medievais, também curtos em extensão, profundos em humanidade. Aqui vão citados dez grandes, lembrados mais pelo estilo do que por algum livro em particular. Porque contista é meio como poeta: passa à eternidade pela dicção que inventa.
Edgar Allan Poe (1809-1849): norte-americano que inventou o homem moderno, o homem-multidão, em contos que vão do tétrico ao policial e ao cotidiano, sempre com finais explosivos
Charles Dickens (1812-1870): inglês, o clássico contador de histórias da vida real, com grande atenção para os de baixo, para as situações mais duramente humanas, na Inglaterra vitoriana
Guy de Maupassant (1850-1893): francês, autor de desenhos vivos e solidários das gentes solitárias, um dos mais notáveis contistas dá notícia da vida urbana européia de seu tempo.
Anton Tchékov (1860-1904): russo, mestre dos climas, das atmosferas, de aspectos subententidos, é um bamba da história curta, sempre conciso e preciso
Franz Kafka (1883-1924): judeu tcheco de língua alemã, o papa da secura, brevidade e mira certeira, escreve alegorias e histórias sufocantes, em que a aparente falta de cabimento é a chave do significado radical.
Jorge Luis Borges (1899-1986): argentino, linguagem serena e clássica a serviço do disfarce de paradoxos em que a Razão se enreda, com direito a cenários portenhos familiares.
William Saroyan (1908-1981): norte-americano filho de armênios, uma alma lírica, temperamento arrebatado, contando histórias de gente isolada, perdida, com intensa vida interior, que recusa a vida burguesa comum
Julio Cortázar (1914-1984): argentino nascido na Bélgica, um lirismo meio delirante posto a serviço de descrições absolutamente surpreendentes, em cenas realistas mas parecendo sonhadas
Juan Rulfo (1917-1986): mexicano, autor brevíssimo, ocupa-se com o relato da vida de gente camponesa simples, flagrada em sua intensa fantasia e religiosidade
J. D. Salinger (1919): o inventor do adolescente na literatura, um norte-americano veterano da 2ª Guerra que leu os ensinamentos zen e proporciona ao leitor verdadeiros momentos de iluminação
Talvez suprima capítulo anterior; entre outros motivos, há, aí, nas últimas linhas, uma frase muito parecida com despropósito, e eu não quero dar pasto à crítica do futuro.
Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que não ama nenhuma outra coisa além dos livros, inclina-se sobre a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito.
É um bibliômano. Não conhece o autor; este nome de Brás Cubas não vem nos seus dicionários biográficos. Achou o volume por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar único... Único! Vós, que não só amais os livros, senão que padeceis a mania deles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhais, portanto, as delícias de meu bibliômano. Ele rejeitaria a coroa das Índias, o papado, todos os museus da Itália e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse único exemplar; e não porque seja o das minhas Memórias; faria a mesma coisa com o Almanack de Laemmert, uma vez que fosse único.
O pior é o despropósito. Lá continua o homem inclina¬do sobre a página, com uma lente no olho direito, todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito. Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, não desco¬bre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro, devagar, com amor, aos goles... Um exemplar único!
Pois há leitores que praticam a leitura enquanto caça. Bem no fim das contas, talvez toda a leitura seja um exercício de caça; mas é preciso escolher bem o alvo. Um objetivo mal escolhido, ainda que com aspecto de erudito, pode levar o leitor a perder coisa boa, que fica pelo caminho inobservada, enquanto a — olha o clichê aqui — caravana da qualidade passa bem ali, ao lado dele.
Leitor dos meus limites, que eu reconheço sem problemas: se der tempo, dá uma relida no Machado de Assis, por exemplo naquele famoso capítulo do Bibliômano, das Memórias póstumas de Brás Cubas. Talvez tu encontres ali algum palpite interessante sobre o que ler, como ler, o que caçar, o que deixar passar.
Vou fazer melhor: vou postar aqui o capítulo, para facilitar a vida de todo mundo.
Está ali, bem ali. Dá pra ver? Ajeitando os dedos dos pés em cima do tapete, dentro das meias confortáveis. Ali na cama, focando melhor a luz do abajur. Ali desligado de tudo, sentado no banco do ônibus, a caminho de casa. Ali na praça, lambendo o dedo para passar melhor a folha. Agora ali, desligado até mesmo da leitura, que o levou, por associação entre as letras lidas no papel com as marcas da vida dentro de seu coração, a um abismo todo surpreendente: nesse novo lugar, o leitor descobre o que já sabia de si mesmo mas nem lembrava mais, e acaba de inventar -- olha a cara dele rindo bem de cantinho de boca, só com um olho -- uma maneira nova de pensar e amar.
(Resposta à pergunta-titulo, feita pelo Alfredo Aquino.)
Tem cidade que a gente entende de primeira, porque está expressa em um símbolo só, que todo mundo conhece. Porto Alegre não é assim. Ela tem vários símbolos, espaços e imagens que a caracterizam, mas sempre parcialmente.
Uma cidade assim, melhor é conhecê-la com cuidado, devagar, assim como se come mingau quente — pelas beiras.
E pela beira da água Porto Alegre oferece, em sua ponta do extremo oeste, a Usina, que uma vez gerou energia elétrica para a cidade e hoje gera energia artística. Primeiro prédio de concreto armado da redondeza, com uma chaminé característica, a Usina está de pé e é hoje este notável centro cultural porque a cidade quis: alguns governantes impiedosos quiseram derrubá-la, para nada, mas a gente da cidade impediu. Para sempre, agora, ela é uma das nossas caras, logo ali.
De uma infinidade de acanhados trapiches e pequenos cais, a cidade construiu, na primeira metade do século passado, um único atracadouro, um lindo cais, hoje quase desativado, mas, cá pra nós, lindo de ver, com seu passeio linear à beira d’água e com os armazéns que parecem desenhados na imaginação. Quem vem do sul, a partir da Usina, acompanha esse largo cais e, se prestar atenção, um pouco adiante vai enxergar, olhando para dentro da cidade, o Mercado Público, um dos prédios mais antigos de Porto Alegre. Não foi ali que os primeiros europeus aportaram, mas foi ali que eles se desenvolveram, com o colorido dos produtos, o variado dos cheiros, o espetáculo das pessoas, a solidez das antigas paredes, e, hoje, com uma forma inteligente, que combina o moderno com o tradicional.
Bem em frente ao Mercado, o também tradicional Chalé da Praça XV. Local de encontros, de um chope amigo, de um sorvete restaurador, ele parece uma pedra preciosa engastada no meio do movimento urbano. De dia, ele via transcorrer o movimento do comércio em volta; de noite, rodas de amigos e até bailes ocupavam o cenário. Durante décadas, ele viveu cercado pelos bondes, que ali tinham um ponto obrigatório, trazendo os bairros ao Centro e levando as pessoas de volta para casa. E ele agora permanece ali, como o Mercado, querendo dizer que o passado tem que encontrar seu lugar no presente.
Uma das saídas desse miolo da cidade é em direção ao norte, pela Voluntários da Pátria, cujo traçado acompanha o da água por onde vieram os primeiros de nós. Hoje, na grande avenida se encontra a gente comum, o comércio simples e vivo, mas também alguns cascos de prédios antigos, alguns preservados; cem anos atrás, ela era ocupada pelo comércio chique e os hotéis, mais ao norte pelos grandes atacados e as primeiras indústrias, isso sem falar nas mais antigas residências de veraneio, mais uma vez naquilo que era beira de rio.
É pela Voluntários da Pátria adiante, sempre rumo do norte, que a cidade vai encontrar a ponte do Guaíba, a primeira das pontes que compõem a Travessia Régis Bittencourt, um complexo de obras de engenharia ligando a capital ao oeste e ao sul do estado. Ponte que nasceu condenada ao moderno, pelo aspecto limpo de sua estampa, pelo lindo vão móvel, ela é mais um dos símbolos da cidade que tem vários aspectos marcantes. Vista de cima da ponte, a cidade também se revela diferente.
Esses elementos que lembramos aqui, todos visíveis a partir da água do Guaíba, estão entre os mais lindos e queridos de Porto Alegre. Duvida? Então dá uma passada por eles, olha para eles e observa os contornos nítidos de cada um deles, não apenas da geografia da cidade, mas igualmente no coração do povo.

O pesqueiro é o lugar onde se pesca; lugar para pescadores; lugar para encontrar certo alimento; lugar que requer uma certa paciência, longe da velocidade geral da vida; lugar mais ou menos afastado da rotina. *** Luís Augusto Fischer é professor e escritor, formado pela Faculdade de Letras da Ufrgs. Tem mestrado e doutorado (com tese sobre Nelson Rodrigues) também pela Ufrgs, onde leciona Literatura Brasileira desde 1985. Escreve regularmente para vários jornais, como Zero Hora. Também colabora com õ jornal Folha de S. Paulo e com as revistas Bravo! e Superinteressante. LIVROS DO AUTOR
Um pesqueiro, metaforicamente falando, é qualquer bom livro: ali, o leitor interessado vai mergulhar o anzol de sua inteligência e de sua sensibilidade, em busca do alimento sutil de que necessita.
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